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As consequências do ser raso na era do conteúdo – Pichação e Arte

 

Ser raso é um direito. Ficar atado à superfície, talvez por medo de afogar-se.
Fazemos isso no mar quando estamos incertos de nossa capacidade de nado.
É, portanto, um direito. Mas os resultados são perigosíssimos…

Em primeiro lugar, deixa-me explicitar o que quero chamar “era do conteúdo“.

Alguns chamam o tempo corrente de “Era Digital”, uma vez que nossa vida online já é realidade; outros chamam “Era Pós-Digital”, já que a “internet das coisas” passa a não mais permitir a abstração natural do que é o on e off, enquanto atuamos; outros, por sua vez, chamam “Era Pós-Moderna”, já que a subjetividade toma o lugar das grandes escolas de pensamento da Modernidade.
Eu prefiro chamar, meio que aludindo a Huxley e seu pensamento que versa sobre a avalanche de dados, como distração, de “Era do Conteúdo”.

Falando sobre nossa vida “internética” rs, me sinto à vontade de dizer que é resumível a uma rede social, especificamente: o Facebook. Essa se baseia no conceito de exposição involuntária ao conteúdo.
Embora eu seja movido a “seguir” uma pessoa ou empresa para receber seus conteúdos, interações de amigos ou mesmo publicidade me expõem a esses, ainda que eu não tenha decidido recebê-los.

A grande sacada, para a geração de relevância, interesse, é produzir conteúdo, torcendo que se propague.

 

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Tudo no Facebook é conteúdo: a piadinha, o vídeo, a reportagem, a foto. São conteúdos que são apresentados e consumidos, e é dentro destes que a informação busca viajar.

Caso pretenda tratar um artigo científico, por exemplo, preciso diluí-lo o máximo possível, apenas referenciando. Sua totalidade jamais será consultada, por isso o menos fazendo-se mais é tão importante.

Problema é: nesse universo do “menos é mais”, a consequência mais presumível é a rasidade (neologismo, tá?).

Se analisarmos os grandes pensadores do passado, eram todos generalistas, ou seja, possuíam conhecimentos relativamente profundos sobre uma multidão de matérias.
No passo dos séculos, na Modernidade, perdeu-se o interesse por tais. Foi o período de ouro dos Especialistas, ou seja, aqueles que focaram-se numa única matéria, acabando “capos” nela.

Há uma verdade inegável na distinção das duas naturezas: é muito mais possível que o generalista saiba menos sobre o assunto X do que o especialista nele, afinal este último consome muito mais dados.

No entanto, com o surgimento da Internet, picotes de dados e informações tornaram-se disponíveis a todos nós.
Uma busca no Google me entrega qualquer informação sobre qualquer assunto.
Hoje, somos todos generalistas, justamente pela facilidade de consulta.

Voltando à tal rasidade, que mencionei, como somos generalistas, porém não estudiosos, sabemos pouquíssimo sobre quase tudo, o que poderia nos motivar a dizer que não sabemos nada sobre nada.

 

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Trago, aqui, para exemplificar essa tese, a questão da Arte sob tal óptica generalista-rasa:

Arte possui uma série de definições absurdamente abrangentes.
Mas, como quero ser específico, vou me permitir formular uma, considerando as divisões contemporâneas dessa realidade (Cinema, Música, Pintura, Escultura, Literatura etc.):

Arte, segundo minha definição, é “o conjunto de técnicas que, aplicado, serve como ferramenta (ou meio) para a produção de realidades materiais ou imateriais sem finalidade prática, que buscam exprimir subjetividades humanas, como sentimentos, emoções e críticas”.

Em “Nous Somme Vagabonds” (recomendo veemente a leitura), disse que as finalidades da Arte são: choque, condenação do “status quo”, a mostra do belo e a oferta de esperança.
Vou me permitir utilizar tais elementos para defender a carência de utilidade prática, que faz a Arte diferente da Tecnologia, que também é criativa (falo mais a respeito no artigo que apontei).

Quando digo “finalidade prática“, falo de nossa existência animal, se posso dizer assim.
Uma colher, por exemplo, tem a finalidade prática de levar alimentos à boca sem que precisemos tocá-los, contaminando, potencialmente.
Um carro tem a finalidade prática de encurtar tempo de deslocamento, uma vez que viaja a velocidades exponencialmente maiores do que nossas pernas nos permitem.

Sem esticar em muitos exemplos, o produto puramente tecnológico, como podemos notar, sempre busca facilitar algum aspecto de nossas necessidades básicas (colocaria até conforto como uma delas, ignorando um pouco a pirâmide de Maslow).

 

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Agora, com tal leitura, qual seria a finalidade prática de uma música, ou de uma pintura, de uma escultura? Que atalho para uma necessidade estas coisas oferecem?
Ora, nenhum. A finalidade delas é subliminar. O mundo pragmático existiria perfeitamente sem qualquer uma delas, não é mesmo?

A Arte, como um todo, busca alimentar mais do que nossos corpos, nossa materialidade. Ela anseia por tocar nossa espiritualidade. Nossa existência excelsa (sem relação com religião, por favor).

E, com tal, agora me sinto à vontade de trazer o assunto principal (que vai dar nó em algumas cabeças. Que esteja avisado.):

PICHAÇÃO é Arte (ponto bem final mesmo).

Pichação é, sim Arte – embora a esmagadora maioria venha a dizer que não – porque engloba todos os elementos necessários para que seja tal.

É:
– Um conjunto de técnicas;
– Serve como ferramenta;
– Produz realidades materiais e, inclusive, imateriais
– Não tem finalidade prática;
– Exprime subjetividades;
– Choca;
– Condena o “status quo”;
– Mostra o belo (por negação);
– Busca oferecer esperança.

Pichação é um grito de menos favorecidos que buscam visibilidade nos meios urbanos.

Ela é expressa em locais arquitetonicamente belos justamente para alcançar maior impacto.
Trata-se da fala de pessoas invisíveis, enquanto humanidade, como a criança que repete vigorosamente, aumentando o tom de voz, o “mãe” ou “pai” até que olhem para ela. Pessoas marginalizadas, excluídas, há séculos.

No entanto, veja que interessante: a esmagadora maioria dirá que pichação é vandalismo e o grafite, sim, é Arte, porque é colorido, encanta os olhos e respeita a lei.

Problema reside no que significa a lei.
Lei é um conjunto de normas que deseja atender necessidades.
Ela não depende em nada de moralidade ou mesmo ética, já que são pessoas que legislam, buscando interesses não necessariamente coletivos.

Trago um exemplo muito bom para me atestar:

Elvis Presley não podia, há algumas décadas, ser exibido na televisão por inteiro, já que seu rebolado e suas roupas apertadas atacavam a moralidade social da época.
Porém, hoje, o mesmo Elvis é um símbolo de revolução.

Aí eu pergunto p’ra você: se fosse um adulto nos tempos da censura às ancas do rapaz, como você consideraria sua postura?!

Vê que interessante usar o passado para analisar o presente?

Óbvio que o grafite encanta muito mais que a pichação. A própria natureza desta última é gerar desconforto (como os quadris do moço, à época).

 

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E nasce uma reflexão muito importante, com um possível tabefe no final:

Por esses últimos dias, um vídeo viralizou, mostrando maus tratos a um cão durante a gravação de um filme (peça artística, inquestionavelmente).

Acontece algo muito simples, especialmente se considerarmos a intelecção rasa de quê é Arte: se apenas consideramos Arte o que achamos bonitinho enquanto produto final, não há problema nenhum em ferir emocionalmente um animal contanto que o filme fique lindo e fofo, não?

Aqui, dentro do Capitalismo, dinheiro é liberdade. O artista, por mais que pretenda fazer Arte no seu mais vigoroso sentido, precisa pagar contas. Contas são pagas com dinheiro. Dinheiro se ganha como? Agradando público alvo.

Nisto, rendemos a natureza dessa manifestação humana tão antiga ao simples agrado dos sentidos, enclausurando seu espírito real no monetizável.

E eu fico me perguntando: como é possível que a mesma pessoa que ataca a pichação, por não ser bela, consegue se escandalizar com um ato criminoso, realizado na busca implacável pela beleza a qualquer custo?!

É claro como a rasidade com relação ao entendimento da Arte é a causa única e inalienável do que de monstruoso passa-se a fazer em busca do “pulchrum“?!

Quem diabos te disse que Arte existe para te agradar?! Como, por deus, você aceitou acreditar em algo assim?!

Obviamente este que vos fala não pretende se mostrar como portador de uma verdade inquestionável. Mas não nego que me é claríssimo o problema e, por tal, quis trazer a reflexão.

Concluo apenas com um pedido, quase que matando a facadas a defesa que fazia, deixando espaço para o pensar.
O pedido é simples:

Por favor, pelo mais sagrado que considere, abandone um pouco o ser raso, pela pressa que essa vida maldita nos exige, e busque minimamente compreender o que pretende criticar.

Sempre que falamos sobre o que desconhecemos, estamos arriscando-nos a dizer bobagem.

Desse modo, façamos-nos a diferença num mundo de pitacos ocos sobre tudo, sem nunca saber nada. Busquemos que o que nos é entendido, seja compreendido à luz da realidade, para que contenhamos verdade no que dissermos.

O preço que pagaremos por não agir assim será a aniquilação de nossa própria natureza, enquanto seres pensantes.