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Desigualdade e população de rua

 

Acho que nunca foi segredo que me oponho vigorosamente à eleição de João Doria como Prefeito de São Paulo.

Nunca fiz mesmo questão que fosse, ainda que viesse a parecer ser uma caça cega fundamentada em discordância ideológica, afinal dois mais dois são quatro, e nada nem ninguém muda isso.

Só aconteceu que, nos últimos tempos, eu parei um pouco de acompanhar, para poupar um pouco as minhas carnes da azia constante que coisas puramente esvaziadas e bem pintadas, com única intenção de promoção marketeira, me causam.

No entanto, antes dessas minhas “férias”, me meti em alguns debates e, na maioria deles, vinha um copy + paste (cujo autor é desconhecido, claro – afinal não se atribuem mais as coisas a quem faz…) padronizado de várias afirmações de ações marcadas com Pró e Contra.
O interessante desse bloco de defesa de pouco esforço era que todos os pontos em prol levantavam elementos diferentes enquanto, nos pontos contra, repetia-se incansavelmente “mas pintou a cidade de cinza” – primeiro como se isso não fosse uma ação bosta, que onerou o município (queira-se ou não), segundo como se cada ação não produzisse uma reação igual e oposta, de acordo com Newton, jogador do Botafogo, e tudo não tenha facetas positivas e negativas na realidade (ainda que uma polaridade possa – e deva – elevar-se à outra para que seja possível determinar se a coisa é boa ou não) -. É a tal da desonestidade intelectual, que tanto conclamam na Internet…

Num desses pontos, defendia-se que o Prefeito reformulou abrigos para pessoas em situação de rua e que passaria a empregá-las, numa parceria com instituições privadas.

Ora, eu não sou especialista no assunto, mas, enquanto botequeiro e suburbano, tive múltiplas oportunidades de conversar e gerar vínculos de amizade com moradores de rua.
Tudo isso acabou despertando empatia, especialmente quando, em 2015, Fernando Haddad protagonizou um escândalo de desumanidade no inverno paulistano, tendo a Guarda Civil Metropolitana como ferramenta higienista, resultando, até, em óbitos por hipotermia.

Naquela situação, penso estar falando de Setembro/15, comecei a consumir muito os materiais de Julio Lancelotti, um padre católico que devota seu trabalho pastoral aos cuidados com moradores de rua. Num, em especial, era levantada a dificuldade de mobilizar tais aos abrigos públicos por N questões, que poderiam passar desapercebidas por qualquer pessoa “prática” (vulgo superficial), como impedimento de permanência de animais de estimação, impedimento de uso de drogas (mesmo álcool), horários restritivos de entrada e saída, impedimento de divisão conjugal do cubículo. Enfim, múltiplas e óbvias razões pelas quais eles preferiam passar a noite na rua, arriscando serem vítimas de violência, de intempéries, privações.

Assim, já tendo uma visão mais iluminada e realista da situação, sendo perfeitamente claro para mim que o que falta não é uma cama no cubículo de um abrigo (mas uma visão humanizada), acabou que respondi sempre ao copy + paste com algo como “[…] não é um problema puramente financeiro. É um problema sociológico, e precisa ser entendido como tal”.

Sendo o tempo uma excelente solução para vinhos, uísques e ideias, surge a tal manchete do Estadão comemorando que João Doria fechou com o McDonald’s um acordo para empregar pessoas em situação de rua, num meio que anúncio de que a resolução definitiva para o caso fora apresentada…
Mas, como eu mesmo tinha dito, não é um problema puramente financeiro…

Eis que, nos infinitos rolares na timeline do Facebook, tive as brilhantes considerações de Vitor Brumatti, Economista, trazendo uma visão valiosíssima (e experimental) sobre demandas opcionais ainda mais importantes do que a potencial recolocação imediata de pessoas em situação de rua no mercado de trabalho.

Como a explanação fala por si, deixo-a abaixo e recomendo vigorosamente que seja lida.

Problemas reais precisam de soluções reais.
Propaganda irresponsável não faz sentido nem no período eleitoral, quem dirá durante uma gestão pública.

 

Reprodução do conteúdo original autorizada pelo autor Vitor Brumatti.