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Em casa tem brócolis

 

Em casa tem brócolis

Como colocar a cabeça no travesseiro sabendo que tantas outras estão em um chão duro?
Como podemos jantar todos os dias tranquilamente pensando que tantos outros não vão jantar?
Como num país como o nosso as pessoas se sentem tão satisfeitas em ostentar dinheiro, vidas perfeitas, jantares perfeitos, paisagens perfeitas?
Não quero ser exemplo para ninguém, mas de onde eu venho e pela educação que tive, não me sinto confortável em mostrar que tenho algo que alguém também não possa ter. Não quero ser o que tenho.

Certa vez, enquanto caminhava pela contraditória Avenida Paulista, sentimentos tão opostos me abatiam. Eu tinha fome, mas eu não conseguia comprar alguma coisa para comer. Eu só pensava: Em casa tem brócolis, não vou gastar dinheiro.
Então eu vejo uma carroça de um catador. Ele vendia panos de prato. Eu compro um punhado por 10 reais. Haviam 3 crianças com ele. Penso: estou com fome. A minha volta tem tantos restaurantes, mas eu tenho brócolis em casa – Eu amo brócolis. Essas crianças vão dormir aqui? Elas já comeram? Vou embora. Não consigo raciocinar.
Como eu poderia gastar 20 reais no Mc sem saber se aquelas crianças jantariam aquela noite?
Dou 20 reais ao homem, agradeço, me viro e vou embora. Ouço o grito do homem, “seu troco!” – Compre comida para elas. E vou embora pensando: tomara que ele faça isso.
Na porta do metro uma jovem simpática vende milho e derivados. Ela acha engraçado eu mudar de ideia 3 vezes sobre a necessidade de tampa para o pote de cural. Não consigo raciocinar.
Vou para casa comendo o pequeno pote de doce milho. Em casa, janto brócolis.

 

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– Foto por Adriano Barros.