i-daniel-blake-2

Eu, Daniel Blake pode ser você

 

Burocracia

Burocracia, filas e esperas intermináveis são verdadeiras arapucas de um sistema que só faz dificultar, ridicularizar e humilhar aqueles que tentam ter seu direito garantido.

Essa é conclusão principal do drama, realizado pelo cineasta Ken Loach e escrito por Paul Laverty, “I, Daniel Blake” (no Brasil, “Eu, Daniel Blake”).

É um filme britânico-franco-belga, vencedor de três categorias, incluindo Palma de Ouro, no Festival de Cannes em 2016.

Contextualizando… Daniel Blake é carpinteiro, tem 59 anos, vive em New Castle, Inglaterra, e sofreu um ataque cardíaco durante o trabalho. Sua médica o proibiu de voltar ao trabalho, então ele busca assistência do governo. Em uma dessas agências, tipo que damos entrada em seguro desemprego, Daniel conhece Katie e dois filhos, Dylan e Daisy, que moravam em um albergue em Londres e conseguiram um apartamento cedido pelo governo, em New Castle, mais de 400 km longe da família em Londres. Sem dinheiro para pagar a luz de casa, deixando de comer para alimentar os filhos, não consegue emprego e nem auxílio.

Bom, não é minha intensão dar spoilers do filme. Só digo que vale a pena assistir, pois a obra vai mais além.

Dentro da sala do cinema com esse filme na sua frente, é inevitável – a menos que você seja um cretino – pensar: Essas pessoas não conseguem entender que ele está precisando de ajuda?

Falta de Empatia

Empatia é a palavra chave deste filme. – No caso a falta dela.

Além de ser enrolado por toda burocracia, pelas filas intermináveis e horas de espera em agências e ao telefone, Daniel e Katie sofrem com a indiferença de servidores públicos, que são despreparados e, principalmente, não fazem questão de entender o que a outra pessoa está passando.

A ficção se passa na Inglaterra, mas se você parar para pensar um pouquinho vai relacionar com muitas noticias recentes no Brasil, como mudanças nas regras de aposentadoria, seguro, horas de trabalho e etc. Isso não é mencionado nas críticas de cinema das grandes mídias. Sério, o filme parece tão brasileiro!

Muitos vão dizer que tem que ser assim mesmo (como no filme), para que não seja como “vemos no Brasil” – pessoas recebendo assistências, como seguro desemprego, ou pessoas que dizem que não podem trabalhar, mas podem. Não acho que o problema são as regras, mas sim a forma como tudo é executado e a falta de acompanhamento caso a caso.

Daniel não quer deixar de trabalhar. Ele quer ajuda para sobreviver enquanto busca tratamento para voltar a trabalhar.

Vergonha e humilhação

Parece que o sistema usa a burocracia para humilhar as pessoas. Para fazê-las se sentirem culpadas e envergonhas por, ou não conseguir empregou, ou não poder trabalhar. Vergonha deveria ter quem usufrui dos programas sociais e não precisa.

Aí vem o falso moralista dizer “quem quer, arruma um jeito; quem não quer, arruma uma desculpa”. Tem também o pessimista que acha que todo mundo é igual e vai dizer “mas brasileiro sempre dá um jeitinho, né?”. Quer dizer que por conta de alguns, que não deveriam, mas usufruem desse direito (que não tem), todos deveriam pagar? E aqueles que realmente precisam?
Já diria minha mãe, “piedade desses, porque, esses sim, são uns desgraçados”, pois usufruem de algo só pelo prazer de “se dar bem” as custas dos outros.
Se você parar para pensar, ainda bem, a maioria das pessoas no mundo são boas. – Fonte: minha cabeça.

Mesmo em cartaz, não foi simples achar um sala para ver este filme. O Cinemark, talvez a rede de cinemas mais popular São Paulo, não deve ter visto nada de promissor na obra, pois não estava em nenhuma de suas salas. Onde eu achei? Cinema Reserva Cultural, na Av. Paulista em São Paulo. Ingressos a R$32 – até ai ok! Só não vá com fome, porque uma esfiha custa R$10.

Por que na rede Cinemark só roda os filmes mais populares e vazios do cinema? Aqueles que parecem te emburrecer aos poucos, sabe?

Recomendo a todos assistirem este filme, mas agora só quando estiver no Netflix, pois já saiu de cartaz. O filme é fabuloso com um final surpreendente.