semalma

Sem alma

 

Sem alma não se vive
Não se respira
Nada vinga

Sem alma não se planta
Não se colhe
Nada vinga

Sem alma não se dorme
Afunda-se no inferno
Por nada se descansa

Sem alma não se acorda
Sente-se a dor da vida
Nada que ouse fazer sentido

Sem alma não se sonha
Inventa-se desgraças mais bizarras que a realidade
Nada anestesia

Sem alma não se vive
Não se quer respirar
Nada faz sentido

Sem alma não se anda
Arrasta-se
Nada tem forma, peso ou medida

Sem alma não se ama
Nem a alguém nem a si mesmo
Nada merece ou se faz merecer

Sem alma não se espera
Afinal não há que o possa vir
Nada, nem sinal de salvação

Sem alma não se nada
Apenas boia, como a morta boia que faz nada na piscina
Nada que alguém, num dia qualquer, precisasse

E sem alma não se é nada
Como coisa que nem deveria existir
Nada que faça qualquer falta

Já que, sem alma, tudo é nada
Nadando no mar da nulidade
Nada aparenta ser capaz de reverter a angústia
Que anula a nulidade do que já não é mais nada
Mas parece que, quanto mais se nada, mais os dias se arrastam
Mais os minutos do tempo se expandem
Fazendo do simples ser, que cabe mesmo às pedras,
um fardo inenarrável

Sem alma, adorar-se-ia não ser
Embora, sendo nada, a âncora se faz mais pesada
E mais o ponteiro se nega a arrastar

Sendo sem alma
sendo mais nada
apenas o que posso contar é:
o tempo é uma piada